domingo, 8 de janeiro de 2017

Máario Soares



Coroai-me de rosas

Coroai-me de rosas
Coroai-me em verdade
                De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
                Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves
                E basta.

Fernando Pessoa / Ricardo Reis
In “Os poemas da minha vida-Mário Soares, ed. Público, 2 ed., 2005

O Guia das Aves de Aquilino Ribeiro

  Um livro com um cd onde consta a leitura dos texto e o canto das respectivas aves, está esgotado, em livro + CD, mas em ebook mais mp3 está disponível  (5,99€)




Guia das Aves de Aquilino Ribeiro
Ana Isabel Queiroz (antologia e texto introdutório)

ILUSTRAÇÃO Maico (Carlos Pimenta)
MÚSICA ORIGINAL José Eduardo
Rocha (JER)
LEITURA Fernando Alves
 Sinopse
Antologia de excertos da obra aquiliniana nos quais se descrevem mais de 60 aves selvagens, seus habitats e relação com o Homem. A compilação é de Ana Isabel Queiroz, que no ensaio introdutório traça o percurso da descrição de aves desde os primeiros "bestiários" até à literatura científica de hoje, passando pela cultura clássica grega, pela tradição popular e pela literatura portuguesa, na qual Aquilino se destaca como verdadeiro naturalista amador. Desperto pela riqueza e variedade das vocalizações das aves e dotado de um ouvido musical que lhe permitiu verter foneticamente as frases escutadas neste processo de comunicação, o escritor revisita na sua obra a produção acústica da vida selvagem, dando-lhe notoriedade.
A acompanhar o livro, ilustrado por dezenas de aguarelas do biólogo e artista plástico Maico (Carlos Pimenta), um CD áudio regista a leitura de 25 desses excertos por Fernando Alves, enriquecidos por gravações de aves do projecto "Paisagens Acústicas Naturais de Portugal" e separados por 16 peças musicais originais de José Eduardo Rocha.

Guia das Aves de Aquilino Ribeiro é o título de estreia da colecção "BOCAGE - Ciência e Arte", baptizada em homenagem ao poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage  (1765-1805) e ao zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), autor da primeira lista comentada de aves de Portugal Continental (em 1862) e primeiro curador do Museu de História Natural de Lisboa.


ApoiosCIBIOMuseu de História Natural da Universidade do PortoFundação Aquilino Ribeiro (e os Municípios de Moimenta de Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva), IELT/UNL, e o projecto Paisagens Acústicas Naturais de Portugal (ISPA-MNHN).

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Romãs e o dia dos Reis

Poesia

[...]Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.

in Natureza - Morta com frutos
Eugénio de Andrade

Tradição
«Dia de Reis deitam-se três bagos de romã no lume para o ter aceso, três bagos na caixa do pão e três no bolso do dinheiro para ter dinheiro e pão
 (Teófilo Braga, em «O povo Português suas crenças e costumes»).

Mito
Diz-se que cada romã tem exatamente 613 bagos, este número é igual aos 613 mandamentos (Mitzvots) ou provérbios judaicos que existem na Tora

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Memória futura



Plantações2016

6 Ginjeiras (Prunus cerasus L.) oferecidas pelo irmão do Arnaldo
3 Gamboas (Cydonia oblonga Mill. )do Sr. Amândio e da D. Manuela
1 pereira Nashi (Pyrus pyrifolia) comprada este ano no lidl
1 Kumquat (Fortunella margarita) comprada este ao no Horto do Campo grande de Sintra
3 pés de Kiwui (Actinidia deliciosaLiang & Ferguson, 1984 2 fêmeas e 1 macho) compradas na Loja do Agricultor Lourinhã (LAL)
20 pés de Morango (Fragaria spp.), variedade Santo André da L A L
1 Pilriteiro (Crataegus monogyna Jacq.), comprado em 2015 nos viveiros do ISA
1 Cerejeira brava (Prunus avium) dos viveiros do ISA 2015
1 Anoneira (Annona cherimola), Mill filha d do quintal de S. Domingos de RAna
1 jambolão (Syzygium cumini(L) Skeels) filho de um nascido em Tires e que teve origem em semente vinda do Brasil.
1 Mitrilo da Nova Zelandia (Eugenia myrtifolia Sims) filha de semente de Tires
1 Sapote branco (Casimiroa edulis Llave & Lex)
1 Auracauria (Araucaria bidwillii Hooker) comprada nos viveiros do ISA
1 Azinheira (Quercus ilex) bolota doce da zona de Alvito, Beja

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Laranja do Loje



Quando aparece um nome novo ou uma variedade nova de fruta, a minha curiosidade desperta, Há muito tempo que as laranjas de Loje me intrigavam (canção de Fausto que musicava um poema de Viriato da Cruz ). Esta crónica tirou-me as dúvidas.


[…]e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...[…]
Mandei-lhe uma carta
Viriato da Cruz -No reino de Caliban II
Antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa
Cantado por Fausto
 

DN Noticias Magazine [Publicado originalmente na edição de 13 de novembro de 2016]



Começo a ter idade que me faz lembrar agradecimentos que nunca dei. À laranja, por exemplo e evidentemente. Primeiro, foi-me um pregão: «Laraaaanja, doce!» Passava na minha rua à cabeça da quitandeira. Esta, chamada pela minha mãe, desenrolava da cintura o primeiro dos panos, o que lhe permitia dobrar-se, pousava o cesto – as mais pobres, o alguidar com o esmalte a desaparecer – e punha de lado o lenço em rodilha que amortecia o peso da fruta. «Dois angolares», anunciava, sem dizer a quantidade, a discussão era para depois. As minhas laranjas eram sempre amarelas, douradas.
As laranjas eram do Loge. Cheguei a pensar serem duma fazenda centenária, a norte de Luanda, na curva do rio Loge, ao chegar a Ambriz, na costa. O meu pai, por razões que esqueci, num dia levou-me de camião mais longe do que os cem quilómetros habituais das excursões de cacimbo, nas férias. O Bedford passou Quicabo, uma rua do faroeste, onde tudo, da bomba de gasolina à pensão, era de um compadre transmontano, e continuámos até um rio. Na outra margem vi sobrados, com telhados de quatro águas e janelas debruadas a azul-cobalto: «A Fazenda do Loge», apontou o meu pai. Ficou o lugar das laranjas, embora não tenha visto nenhuma. E devia: elas amadurecem no tempo frio, no cacimbo.
Mais tarde soube que afinal elas vinham do colonato do Loge, num vale do interior, tão longe do Ambriz como Luanda. No colonato havia brancos pobres e negros mais pobres. Estes eram tocoístas, uma igreja cristã que em 1950 fora expulsa da capital do Congo, Leopoldville. Esperavam pelo messias e faziam lenços brancos bordados em ponto cruz. Nos fins da década de 1950, cultivavam as minhas laranjas e deviam ser felizes. Na internet, ainda há uma «Maria José», branca, que pergunta ao mundo «lembram-se de mim?» e há uma tocoísta que fala dos lenços brancos. Não sei se se conheceram. As aldeias desapareceram em 1961, quando começou a guerra. E os laranjais também.
Os portugueses conhecem, pela voz de Sérgio Godinho, uma das mais belas canções de amor na nossa língua: «(…) seus seios laranja/ laranja do Loge/ eu mandei-lhe essa carta/ e ela disse que não…» É sobre o namoro de um poeta da minha terra, Viriato da Cruz, que foi morrer à China. As melhores aguarelas de quitandeiras são de um pintor da minha terra, Albano Neves e Sousa, que foi morrer a Salvador da Bahia. Nada que as minhas laranjas desconheçam, o viajar.
A minha mãe trazia as laranjas para a sala, para o centro de mesa, como flores. Na parede, sobre o frigidaire (não ponham maiúscula, era uma coisa, imperial e branca) havia a pintura A Última Ceia. Só mais tarde soube que não era o original, de Da Vinci, era uma cópia porque havia laranjas à mesa, frente a Jesus, Pedro e Filipe – sempre pensei que este se levantara para apanhar uma. Mas não, Filipe protestava por Jesus ter dito que nessa noite alguém o iria trair. E, em todo o caso, no tempo de Jesus ainda não havia laranjas em Jerusalém.
As minhas laranjas são pequenas, casca fina e dulcíssimas. Não são Valência, como as da Florida que fazem sumo em pacote, nem Navel, como as dos supermercados, sem semente e com umbigo, como o nome indica em inglês. Não estou a dizer que estas não são boas, estou a dizer que são outra coisa. As minhas têm sementes, como devem ter os frutos sem laboratório, chamam-se do Loge e já não há. Trato as que há homenageando as minhas. Mordo a laranja e descasco com os dedos – a casca grossa não merece o trabalho de cinzelador com que o meu pai fazia uma espiral sem quebrar.
Ah, e ao comer chamo-lhe sempre baixinho – porque «do Loge» é muito íntimo – «orange», porque em francês vem de ouro. Que raio de ideia chamarem laranja a um fruto cor de laranja que é amarelo (ou, pelo menos, devia ser).